16x06 A cuckoo in the nest.
Susan.
O primeiro dia nunca
é fácil. Você sempre se sente um estranho no ninho. As pessoas olham para a sua
cara te julgando porque seu jeito é diferente do que eles estão habituados a
ver. Ou então esperam que você tenha uma mente superdesenvolvida e seja melhor
do que eles para que seja digno de estar ali. Eu me enquadro no primeiro grupo.
Por mais que esteja
em casa, este lugar não é mais o mesmo. É como se um belo dia você abrisse a
porta de seu apartamento e percebesse que alguém foi lá e trocou todos os
móveis. As fotos nos porta-retratos não são as mesmas. O cheiro de lustra
móveis foi substituído pelo aroma de madeira recém cortada. As cortinas brancas
agora são azuis. Ainda é a sua casa, mas não é mais o seu lugar.
Porém depois de um
tempo morando no seu antigo lar com cara nova, você se habitua novamente.
Começa a reconhecer as marcas que você tinha deixado e que foram aos poucos
esquecidas. Os riscos na parede, registrando o crescimento das crianças. O
vidro quebrado da janela na qual você lançou a bolinha do cachorro sem querer.
É incrível como você consegue encontrar suas partículas espalhadas por todo o
canto. E ai percebe que aquilo nunca deixou de ser sua casa. Você que deixou de
morar ali por um tempo. Mas quando voltou, o lugar ainda era seu.
Aos poucos vou me
situando. Muitas coisas mudaram, estão mais modernas. A tecnologia vem a cada
dia trazendo novas facilidades. Vários problemas se resolvem com um simples
click. Agora temos um arquivo virtual, além das fichas em papel. Assim fica
muito mais simples acessar o histórico de um paciente. O quadro também é mais moderno. Transparente.
Muito mais bonito. As salas estão melhor equipadas, os medicamentos, melhor
organizados. Nem parece o mesmo lugar.
Mesmo tendo sido
reformado, o prédio me traz inúmeras lembranças. Posso me enxergar ali, cuidando
de pacientes, logo no início de minha carreira. Milhares de cenas se formam em
minha cabeça, como uma enxurrada de recordações. Carol Hathaway entrando em uma
maca. Ela havia tentado o suicídio. John Carter em seu primeiro dia, todo
atrapalhado. Peter Benton tentando ressuscitar um paciente que já não teria
salvação. Mark Greene pego em flagrante, com a esposa no banheiro. Doug Ross
chegando bêbado ao trabalho. Kerry Weaver passando a perna em todo mundo. Bons
tempos.
Já voltei uma vez.
Era uma época nova. Diferente. Carter estava mais maduro, porém continuava
atrapalhado. Tivemos um pequeno relacionamento. Mark estava casado. E com um
tumor no cérebro. Carol havia tido dois bebês e ido morar com Doug. Conheci
outras pessoas, fiz novas amizades. Conheci Chuck. E então veio Cosmo. E a
minha vida mudou completamente.
Agora volto
novamente. Por mais que pareça estranho, devo agarrar essa chance como uma
oportunidade de recomeçar. Depois de tantas voltas que a minha vida deu, está
na hora de finalmente sossegar. É exatamente isso que vou fazer. Mesmo que me
sinta uma estranha no ninho, vou conquistar meu espaço novamente. E por falar
em conquistar espaço, preciso ir me apresentar para a equipe. Agora não sou
apenas a Doutora Lewis. Sou a Doutora Susan Lewis, chefe do P.S.
Abby.
Perfeito. Agora Luka
está desempregado também. Se há um Deus no céu, ele deve mesmo estar contra a
gente. Sempre que algo começa a dar certo em nossas vidas, um desastre acontece
e ai vai tudo por água abaixo.
Meu Ipad começa a fazer barulho. Alguém quer
conversar comigo. Me aproximo do aparelho com a intenção de acabar com esse
toque irritante e deixar quem quer que seja, esperando feito um tonto. Então
vejo o nome no visor. É Neela. Certo, vou atendê-la. Preciso mesmo conversar
com alguém, e depois de Luka, a pessoa em que mais confio nessa vida é ela.
Toco a tela e a imagem de minha amiga surge. Ela sorri pra mim e eu me esforço
para sorrir também.
- Hey!
- Olá, Neela.
- Como você está?
- Bem. – Digo, no melhor de meus esforços.
- Okay, por alguma razão, você não me convenceu. Aconteceu
alguma coisa? É o Luka?
- Não! Bem... Mais ou menos. Mas deixa pra lá. Não é nada
muito importante.
- Vocês brigaram?
- Okay, eu vou contar. Mas não me julgue.
- Certo.
- Luka e eu estávamos trabalhando no mesmo lugar. Ele era
chefe e eu fui promovida há pouco.
- Isso eu sei. E o que tem?
- Eu fui demitida.
- Oh céus, Abby! Eu sinto muito!
- Eu nem me lembrava mais de como era essa sensação, sabe?
Meus últimos empregos eu deixei porque eu quis. Eu pedi as contas. Foi uma
decisão minha. Mas não é esse o problema.
- Não mesmo. Você arruma coisa melhor. Eles que estão
perdendo.
- Não é por isso. O cara que me demitiu é um babaca. Ele é
parente do dono do hospital então se acha uma espécie de deus lá dentro.
- Pelo menos você se livrou disso.
- Ah sim, essa é a parte boa. Eu me conformei fácil. O
problema é que Luka não aceitou bem a
situação.
- Oh céus, é mesmo, ele é chefe! E ai?
- E ai que mesmo eu falando pra ele não tomar nenhuma
atitude precipitada, ele foi lá e quebrou a cara do babaca.
- Meu Deus!
- E agora estamos os dois desempregados. As contas continuam
chegando, a escola do Joe é uma fortuna e a essa altura, o infeliz já deve ter
feito a nossa caveira para todos os hospitais possíveis e imagináveis aqui.
- Venha para cá então! Ray e eu adoraríamos receber vocês
aqui até se estabilizarem.
- Obrigada pela oferta, Neela, mas já sei o que faremos.
- E qual é o grande plano?
- Voltar para Chicago.
- Você está maluca?
- Não. Na verdade, acho que nunca estive tão sã em toda a
minha vida. Carter veio aqui há alguns dias. Ele estava em uma reunião e acabou
perdendo o vôo. Então resolveu nos visitar. Me ofereceu uma vaga. Eu neguei, é
claro. Mas foi antes disso tudo acontecer. Luka também conseguirá se achar por
lá. Quando finalmente conversamos sobre a nossa situação eu disse que queria
voltar. Embora não esteja dando saltos de alegria com essa idéia, ele aceitou.
- Eu as vezes sinto falta de lá também. Por mais que estejamos
bem aqui, é como se não fosse nossa casa sabe?
- O que você acha de tudo isso?
- Acho que você está certa. Mas que devia explorar novas
possibilidades. Provavelmente as coisas estarão diferentes por lá. As pessoas
não são mais as mesmas, a chefia não é mais a mesma, nada é igual. Você pode
aproveitar essa oportunidade para mudar de ares.
- O que você quer dizer com “mudar de ares”?
- Bem, você pode tentar algo novo. Uma especialização por
exemplo.
- Neela, não sou muito feliz na cirurgia. Sem ofensas, mas
não é pra mim.
- Não existe apenas cirurgia, Abby. Por que você não tenta
algo como a neonatal? Você se deu bem lá.
- Não acho que eu conseguiria.
- Oh céus, é verdade. Me desculpe pela sugestão idiota.
- Tudo bem.
- E OB? Você era de lá antes de ir para o P.S.
- Mas eu era enfermeira. É diferente.
- Eu sei, mas talvez seja uma boa oportunidade. Você se dá
muito bem com a Coburn.
- OB. Bem, vou pensar no assunto.
- Talvez seja bom tentar algo diferente. Mas é você quem tem
que decidir isso.
- Vamos parar de falar sobre mim. Eu já estou de saco cheio
desse assunto. E ai, como estão as coisas?
- Ray está me enlouquecendo.
- Por que?
- Ele enfiou na cabeça que quer ser atleta.
- Acho que isso é uma boa idéia. Depois do acidente, ele
precisa mesmo de uma motivação.
- O problema não é esse. Eu também acho que ele precisa
tentar coisas novas. Mas o que me irrita é que ele fica pegando no meu pé. Quer
que eu treine com ele e diz que mesmo sem as duas pernas ainda corre mais do
que eu. O pior é que é verdade. Mas eu também não me interesso muito por sair
correndo desenfreadamente.
- Dê um tempo a ele. Ele está se redescobrindo.
- Eu não preciso me redescobrir.
- Exercícios físicos fazem bem à saúde. Diminuem as chances
de vários problemas futuros como infartos e AVE’s. – Eu não resisto. Preciso rir.
- Cala a boca.
- Okay. Não falo mais nada.
- Abby, preciso ir. Tenho plantão em duas horas e ainda
tenho que passar no banco.
- Tudo bem. Preciso levar Joe pra escola, enquanto ele ainda
não foi expulso por falta de pagamento.
- Céus!
- Acene para mim quando aparecer no canal 3 por ganhar a
maratona!
- Vai se ferrar!
- Também te amo.
- Tchau, Abby!
- Tchau.
Encerro a chamada,
ainda rindo. Só Neela mesmo para conseguir me fazer rir em uma situação como
essa. Obstetrícia. Talvez seja bom avaliar os fatos sobre uma nova perspectiva.
Mas preciso pensar. É uma decisão muito grande para se tomar de uma hora para a
outra.
Carol
Papéis, papéis e mais
papéis. Não sei o que eu tinha na cabeça quando aceitei um cargo
administrativo. É nesses momentos que eu sinto falta de toda aquela loucura do
PS. Puncionar veias, aplicar medicamentos, realizar curativos... Vez ou outra
aparecia algum caso bizarro como uma faca enfiada na cabeça ou algum objeto
estranho introduzido no ânus. Agora vou ter que ficar aqui até semana que vem,
com a cara enfiada nessa papelada.
Meu telefone toca e
eu atendo prontamente. O que será dessa vez? Provavelmente alguém querendo me
ver para pedir uma mudança na escala.
- Carol Hathaway
- Mãe?
- Kate? O que você quer?
- É a Tess, mãe!
- Desculpe, filha. Eu estou muito ocupada agora. Diga logo,
o que aconteceu?
- Kate e eu podemos dormir na casa da Stephannie?
- Tess, nós já conversamos sobre isso.
- Mas mãe, hoje é aniversário dela! A mãe dela deixou ela
fazer uma festa do pijama e ai ela nos convidou!
- Quem vai?
- Angela, Sophia, Lisa, Kate e eu. Só. A mãe dela não deixou
chamar muita gente porque a casa não é muito grande.
- Peça para a mãe dela me ligar.
- Isso é um sim?
- É um talvez. Vou falar com o seu pai ainda.
- Valeu, mãe!
- Talvez, Tess.
- Okay. Tchau! Amo você!
- Eu também.
Posso ouvir Tess
gritando pela irmã antes de desligar o telefone. Em menos de 5 minutos, Lindsay
Martin me liga para falar sobre a festa. Acabo consentindo. Com as meninas fora
de casa, Doug e eu poderemos conversar.
Me levanto para
apanhar um dos livros de registro na estante e quando dou por mim, duas mãos
masculinas agarram minha cintura, e lábios macios tocam meu pescoço. Um pequeno
grito de espanto sai involuntariamente de minha garganta. É inacreditável o
poder de Doug de invadir a minha sala sem fazer ruído algum. Mais inacreditável
ainda é seu dom de sempre me pegar desprevenida.
- Você não devia estar atendendo alguém?
- E você devia estar assinando papéis.
- Eu estava pegando o livro de registros para começar a
fazer isso.
Doug me vira para ele
e nossos lábios se tocam com carinho.
- Eu vim avisar que vou sair mais cedo hoje. O Doutor
Kenneddy chegou mais cedo e está tudo calmo. Vou buscar as meninas na escola,
levar elas pra tomar um sorvete e ai vamos jogar videogame até você chegar.
Quem sabe à noite podemos ir ao cinema.
- Sinto muito, garotão. Seus planos não vão funcionar.
- Por que?
- Kate e Tess vão dormir na casa da Stephannie. É
aniversário dela e a mãe resolveu fazer uma festa de pijamas.
- Não sei se gosto dessa ideia.
- Eu falei com a Lindsay. Ela me ligou e nós conversamos
sobre o assunto. Acho que não tem problema.
As garotas se conhecem desde os 3 anos e a Stephannie já dormiu algumas
vezes lá em casa.
- Então seremos só você e eu. – Ele diz com um olhar
malicioso.
- Sim. Mas vai com calma. Você pode pegar elas na escola,
tomar seu sorvete e ai ajudá-las a arrumar a mochila e levá-las até a festa.
- Nada vem fácil.
- Não.
- Mas se quiser, podemos ir ao cinema. Só não garanto que eu
vá sair daqui tão cedo.
- Eu posso mudar meus planos. – Ele me puxa pelo quadril e
encosta sua testa na minha.
- Tarado!
- Princesa.
- Doug, xô daqui, senão eu só vou terminar de ver esses
papéis na semana que vem.
- Certo, já vou indo. Você quer alguma coisa? Vou aproveitar
para passar no mercado.
- Uma grande e deliciosa barra do meu chocolate preferido me
faria feliz.
- Okay.
Ele concorda, mas não
larga meu quadril e tampouco desencosta sua testa da minha.
- Você não ia embora?
- Ia.
- Então vai.
- Tá.
Nenhum movimento.
- Doug!
- Okay!
Ele finalmente me
solta. Vai até a metade do caminho, e então volta e me dá um beijo que me tira
o fôlego. E então sai sem olhar pra trás, me deixando com um sorriso idiota no
rosto. Eu realmente amo esse homem.
Anspaugh
Os anos foram muito generosos comigo. Depois da partida de
Scott, passei a me dedicar ainda mais à medicina. Sei que muitas vezes fui
injusto com a minha família, especialmente com o meu garoto, mas isso é o que
eu sou.
Porém agora as coisas
tomaram proporções diferentes. Não tenho mais 20 anos. Meu corpo já não aguenta
o tranco como antigamente e minha mente está cansada. Já não tenho a paciência
que tinha quando era mais moço e essas papeladas só me irritam cada vez mais. É
chegada a hora de tomar uma decisão que por muitos anos tentei adiar.
Finalmente vou entregar os pontos e me aposentar. Posso viajar pelo mundo, ou
apenas me sentar em minha poltrona predileta e ler um bom livro. Um homem
trabalha a vida toda para ter algum conforto em sua velhice. Graças a Deus
juntei muitos recursos que podem me fornecer alguns benefícios. Porém antes de
ir, ainda há uma coisa a fazer: Encontrar um substituto competente. Um nome me
vem a mente. Sim, esta é a pessoa correta. Pego o telefone sem hesitar e disco
seu número. Quem sabe a oferta lhe é interessante?
Luka
Não vai ser fácil
voltar. Eu já fiz muitas concessões por Abby. Já aceitei muita coisa e abri mão
de muitas vontades e opiniões. Desta vez estou totalmente contrariado. Mas ela
está certa. Fui um idiota, metendo a mão na cara daquele babaca. Mas não me
arrependo. Um homem deve preservar o nome de sua família. Ele teve o que
mereceu. E agora não me resta muita opção. Estamos nesta situação por minha
causa. Se eu não tivesse batido nele,
ele não faria nossa caveira para todos os hospitais por aqui. Poderia simplesmente ter me demitido, e
então, Abby e eu teríamos uma chance de encontrar um novo emprego sem ter que
deixar Boston.
Eu estaria disposto a
ir à qualquer lugar com ela. Por ela. Mas francamente, Chicago? Por mais que a
oferta de Carter tenha sido generosa e que Susan já tenha me ligado umas 5
vezes para tentar me convencer, de uma coisa estou certo: Não volto para o
County.
Neela.
Devo confessar que fiquei preocupada com
Abby. Eu em seu lugar, não sei o que faria. Na verdade, acho que faria a mesma
coisa. Ainda sinto saudades de Chicago. É como se eu estivesse em uma viagem de
férias. Mas agora a minha vida é outra. Ray e eu estamos muito bem aqui e eu
não quero estragar tudo. Além disso, aquele lugar trás lembranças infelizes a
respeito do acidente, de modo que para Ray não seria interessante voltar a
viver lá, e se não faz bem pra ele, não faz bem pra mim.
Provavelmente está
sendo bastante desconfortável para minha amiga, mas de certo modo deve ser
reconfortante voltar para casa. Ouço a porta da frente e sinto um cheiro de
pizza. Perfeito, não precisarei cozinhar. Espero que ele tenha trazido cervejas
também, nosso estoque está vazio. Vou
terminar de lavar esses pratos e então poderemos assistir Friends enquanto
apreciamos nosso jantar. Escuto o barulho de caixas sendo abandonadas sobre a
mesa e de repente sinto duas mãos em meus quadris e a voz de Ray cantando para
mim “Your body is a wonderland, your body is a wonder (I’ll use my hands) your
body is a wonderland...” ao pé do ouvido.
- Hey!
- E ai, gata?
- Oi. – Eu me viro para ele e toco seus lábios com os meus.
- O que está fazendo?
- Achei que parecesse obvio que eu estou lavando a louça.
- Okay, pergunta idiota.
- Trouxe pizza do que?
- Quatro queijos e calabresa.
- Cerveja?
- Encima da mesa.
- E você está deixando esquentar?!
- Larga isso ai e vamos comer enquanto a pizza está quente e
a cerveja gelada, sua resmungona!
- Não, já estou terminando.
- Vem! – Ele me puxa pelo braço.
- Não! – Eu resisto.
- Neela!
- Não! – E com todo o carinho do mundo, eu jogo água nele.
- Ah não! Agora estou todo molhado! Vou ter que trocar de
roupa!
- Bem feito.
Ele me olha maliciosamente
e então joga água em mim também. Minutos de guerra depois e uma enchente no
chão da cozinha, estamos os dois no chão, rindo descontroladamente.
- Agora eu preciso trocar de roupa também.
- Se você tivesse vindo quando eu chamei, isso não teria
acontecido.
- Tome ciência de que é o senhor quem vai limpar essa
bagunça.
- Foi você quem jogou água em mim primeiro!
- Não importa, você provocou.
- Tá, vamos comer e depois eu arrumo isso aqui.
Nos levantamos, ainda
rindo e partimos rumo ao quarto, para trocar de roupa. Além da cozinha em
estado de guerra, não queria que meu sofá tomasse o mesmo destino.
Doug.
Acho que nunca vou
entender porque meninas gostam tanto de dormir na casa de suas colegas. Minhas
filhas estavam radiantes quando as deixei na festa da amiga. É a mesma
expressão que eu observo no rosto da Stephannie quando ela vem à nossa casa.
Foi bom ter saído
mais cedo hoje. Apesar de não estar sendo como eu planejei, consegui tomar um
sorvete com as garotas e agora tenho um novo plano para a mãe delas. Se Carol
chegar em casa antes da semana que vem. Bom, já está tudo preparado. Posso
tomar um banho e assistir o jogo enquanto espero. Ou não. Existe aquele mar de
fichas que eu tenho que revisar.
Carter.
Fecho os olhos,
revivendo essa manhã. Ela me tocava com seus dedos delicados, me dava o que
tinha e pedia mais de mim. Isso é um erro. E agora o erro está tomando um banho
no meu chuveiro. Não posso me entregar a isso. Quando eu a queria, ela não me
quis e agora que resolvo seguir em frente, ela aparece? Não. Simplesmente não.
A vida me deu uma nova chance ontem e ela não se chama Kem.
Meu celular toca, e
me surpreendo ao ver o nome no visor. Alicia. Só poderia ser um sinal. Ela me
convida para sair. Diz que tem uns minutinhos livres e que deve dar tempo para
um jantar. Quer saber? Não vou perder essa oportunidade. Kem sai do banheiro
enrolada na toalha e vem em minha direção.
- John...
- Agora não.
- Eu acho que... – Ela começa com a voz manhosa.
- Preciso sair.
Eu me levanto, apanho
as chaves do carro e sigo para a porta. Não vou permitir que ela me seduza
novamente. Não mereço isso.
- Por favor, se for sair, deixe a chave embaixo do
tapete.
E saio, deixando-a
para trás com uma expressão inconformada.
Susan.
Felizmente as coisas saíram como o planejado. Alguns já me
conheciam, outros conheceram agora, mas neste primeiro momento, ninguém pareceu
me odiar. Ainda não. Confesso que neste
instante, me sinto muito mais tranquila. Carter não chegou ainda. Provavelmente
está de folga. Vou ter que levar o plantão sozinha. Tudo bem, este é o meu
trabalho. Um trabalho que eu sempre quis. Agora sou chefe. Nada mais do que o
merecido.
Carol:
Estou esgotada.
Provavelmente vou sonhar com papéis hoje. Finalmente cheguei em casa. Vou tomar
um banho e cair na cama. Ou não. Doug e eu precisamos conversar. Termino de
colocar o carro na garagem e permaneço ali alguns instantes. Estou sem coragem
até mesmo para descer. Respiro fundo e finalmente saio do veículo. Vou
praticamente me arrastando até a porta da cozinha. Sinto a tensão em meus
músculos. Dor na minha lombar, nas minhas pernas, nos meus ombros... Quando
entro, dou de cara com uma mesa cuidadosamente preparada. Os pratos alinhados,
os guardanapos, talheres, uma rosa vermelha em um vaso pequeno sobre a mesa,
velas apagadas e uma caixa de China in Box que cheirava a yakisoba. Doug sabe
que eu jamais aprenderia a comer com hashis. E eu sei que ele não é um cara do
tipo romântico, então prontamente percebo que tem coelhagem nesse mato. Porém é
impossível não me sentir comovida com o gesto.
Dou passadas lentas
até a sala. A TV está ligada no jogo, Doug está babando no meu sofá e a maldita
garrafa de cerveja marcando a minha mesa. Abandono minha bolsa e meu casaco sobre
a poltrona e meus sapatos ao lado dela, cansada demais para brigar, e me largo
no sofá de 2 lugares, sem coragem nenhuma. Devo ter sido tão delicada quanto um
elefante brincando de pique esconde, porque meu marido abriu os olhos antes
mesmo de eu ter conseguido colocar meus pés para cima.
- Finalmente você chegou! Pensei que ia amanhecer no sofá!
- E sua cerveja na minha mesa.
- Me desculpe por isso.
Ele se levanta e leva
a garrafa na cozinha. Quando volta, se senta no braço do sofá de dois lugares e
começa a massagear meus pés. Quase soltei um grito de prazer por conta disso.
Meus pés doem tanto neste momento que acho que não suportaria colocá-los
novamente no chão tão cedo.
- Você está um trapo.
- Você está lindo também.
- Só digo a verdade.
Eu percebo algo em
sua feição, que me incomoda. É como se
quisesse me dizer alguma coisa, mas estivesse procurando as palavras certas.
- Doug?
- Okay. – Ele respira fundo. – Carol, precisamos conversar.
- O que aconteceu? – Eu fico em estado de alerta e
imediatamente penso em minhas filhas. – As meninas...
- Não tem nada a ver com as meninas. Pode ficar calma.
Lembra que dias atrás eu te disse que recebi uma ligação?
- Sim, lembro. E o que tem?
- Me ligaram hoje novamente.
- Quem era?
- Stuart Morrison, do hospital Saint Joseph, em Chicago.
- O que ele queria?
- Me oferecer uma vaga como chefe da pediatria. Somos velhos
amigos e ele disse que tem acompanhado meu trabalho e agora o hospital está em
expansão e surgirá essa vaga daqui uns meses.
- E o que você acha disso?
- Não sei. A oferta é boa, mas nós estamos bem. Você é feliz
aqui, Carol? Me diga com toda a sinceridade.
- Sou. Nosso trabalho nem sempre é agradável, mas geralmente
é bom. As meninas estudam em um colégio bacana e nós temos uma casa
confortável. Eu sou feliz aqui. Mas a questão não sou eu, Doug. Se você achar
que é uma boa oportunidade, eu estaria disposta a mudar por você. Já fiz isso
uma vez, e faria novamente. Somos uma família. Kate e Tess são pré-adolescentes,
elas se adaptam rapidamente. Não quero que desista de aceitar a oportunidade se
achar que deve, por minha causa.
- Estamos bem aqui. Como você mesma disse, temos bons
empregos e as meninas também estão felizes. Somos uma família. Devemos ficar
bem. Eu só queria te contar logo. Não gosto de esconder coisas de você.
- Obrigada.
- Vem, vamos jantar.
- Você preparou tudo isso, porque queria me dar esta
notícia?
- Não. Preparei tudo isso porque hoje somos só nós dois e eu
queria passar um tempo agradável com a minha esposa.
- Sei. Doug, eu estou muito cansada. Estou sem coragem pra
colocar meus pés no chão novamente.
- Não seja por isso.
Eu o observo se
levantar rapidamente e ir para a cozinha. Em questão de segundos, volta
trazendo nosso jantar e nós comemos enquanto eu conto sobre um caso estranho
que surgiu depois que ele saiu. Abandono meu prato sobre a mesa de centro e
Doug faz o mesmo. Seu polegar vem em minha direção para limpar um pouco de shoyu
que ficou no canto de minha boca e antes que eu perceba, estamos nos beijando.
Eu tento resistir. Meus músculos absurdamente doloridos protestam. Mas não
consigo. O cansaço vai dando espaço a uma sensação diferente, à medida em que
ele me toca. Suas mãos espertas deslizam por baixo da minha blusa e sinto seu
toque me despertando aos poucos. Meus dedos tomam vontade própria e se livram
de sua camiseta branca. Em questão de segundos, sinto sua pele quente,
aquecendo a minha. Seus lábios se fecham sobre um de meus seios enquanto suas
mãos exploram o lado interno de minhas coxas. Seus beijos me alucinam, seus
toques me excitam. Um gemido escapa de minha garganta quando ele resolve traçar
um caminho com a língua até o marco de minha feminilidade e se divertir ali por
alguns instantes, me observando estremecer diante de suas carícias. Logo a
necessidade se torna urgente e desesperada. Nossas bocas se encontram novamente
enquanto ele me preenche. Nossos corpos, nossos corações, nossas almas. Agora somos
apenas um.
Nossas anatomias se
movem de modo suave e gentil, como em uma delicada valsa. Cada qual com seu
passo lento e decidido. Me sinto voar por um instante. Subo alto, perto do céu.
E então despenco rumo ao abismo. E estremeço embaixo dele, segura por seus
braços fortes. Doug estremece contra mim. Seu peso se tornando absurdamente
mais notável. Agora sinto como se eu flutuasse e nada houvesse para me manter
ali, não fosse o corpo dele contra o meu. Todo o cansaço se foi. A dor não
existe mais. Estou completa e relaxada. Lentamente, meu marido se ajeita no sofá
e me ajuda a me acomodar também. Como em um estalo, ele se levanta e me toma
nos braços e seguimos para o nosso quarto, rindo como duas crianças com um
brinquedo novo.
Cenas finais:
Abby e Luka colocam alguns de seus pertences em caixas de
mudança e as lacram.
Carter e Alicia conversam, enquanto comem pizza em um
restaurante.
Neela e Ray assistem Friends, aninhados no sofá, apreciando
sua cerveja.
Susan explica um procedimento à um senhor idoso e sua esposa
com uma expressão de plena satisfação.
Kem está sentada no sofá de Carter, abraçando os joelhos,
com um olhar infeliz.
Doug e Carol adormecem abraçados em sua cama.

Ah! Existe coisa melhor que acordar num sábado de manhã e ver um cap prontinho? Tava com saudades já da fic! Dii! Mindus! Você mandou MUITO BEM! Eu amei o cap! E devo dizer três coisas:
ResponderExcluir1 - "A coelhagem no mato" foi a expressão da semana! HAHAHAHAH
2 - A cena HOT ficou muito boa!
3 - Kem infeliz é basicamente algo que devia acontecer TODO DIA! :D
Enfim, amei amei amei TODO O CAP!
:**
Meninas, estou lendo "devagarinho" mas estou lendo... ultimamente estou trabalhando tanto que as vezes não consigo ler um epi inteiro de uma só vez... Mas estou adorando!
ResponderExcluirOs diálogos estão ENORMES. Falta o clima televisivo. Você já pensou a Carol falando uma fala daquela na TV ? O telespectador mudaria de canal. TV = VELOCIDADE.Abraço e parabéns pela iniciativa.
ResponderExcluirAh mas não acho que tenha fugido à proposta. Realmente para a TV ficaria meio longo, porém por se tratarem de fics, fica mais aberto. Estamos tentando fazer uma coisa mais diversificada. Alguns de nós tem mais facilidade em focar no hospital e nos traumas e tal e outros focam mais na parte pessoal dos personagens. Mas achei legal ter comentado isso,todas as críticas são bem vindas, porque podemos trabalhar para melhorar isso =) Obrigada por lerem! - Prestaremos mais atenção no próximo =)
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